O impacto da saída dos médicos cubanos na saúde do povo sertanejo

Por: *Aristóteles Cardona

De tudo que vem sendo dito sobre o fim do Programa Mais Médicos como o conhecemos, decidi trazer alguns números para explicitar o desastre que a saída dos cubanos representará para o povo sertanejo, no geral, mas particularmente onde acompanho, que é o sertão pernambucano.

Me envolvi com o Mais Médicos desde quando ele era ainda uma ideia e desde então componho a tutoria pedagógica dos profissionais que estão em grande parte do sertão de Pernambuco, por meio da instituição na qual sou professor, a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).

Atualmente Pernambuco conta com 427 médicos cubanos distribuídos em 123 municípios do estado. Inclusive, com todas as áreas consideradas Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) cobertas quase que exclusivamente por médicos de Cuba.

Como curiosidade, cito que se tratam de 34.620 pessoas que moram nestas áreas indígenas e dependem deste programa para ter atendimento médico cotidiano. São 12 etnias, entre elas os Pankarurus, Trukás e Fulni-ô.

Mas eu quero mesmo é tratar do Sertão. No total, temos 57 municípios no sertão de Pernambuco. Destes, 46 são atendidos pelo Programa, com quase todos contando com a presença de profissionais cubanos.

São 132 médicos e médicas que vieram da Ilha, ao todo, no sertão do estado, sendo oito em áreas de distrito indígena. Vale o destaque de que todos os médicos em área indígena são cubanos aqui no sertão.

Mas vamos a algumas estimativas. Considerando apenas o trabalho dos cubanos, estamos falando de uma população estimada em 594.000 pessoas cobertas por estes profissionais. É muita gente! Se considerarmos que a maioria dos profissionais realizam mais de 350 atendimentos por mês, estamos falando de, no mínimo, 50.000 consultas realizadas todos os meses por estes profissionais.

A grande questão que quero deixar com estes números é sobre qual solução o novo governo do Brasil oferecerá à população brasileira. Chega de especulações ideológicas que só agradam à parte de seus eleitores, mas não resolvem o problema do acesso à saúde de tantos milhares de conterrâneos. Estamos falando de quase 600 mil pessoas que a partir do mês que vem estarão sem médicos. E, vou repetir, estou falando apenas da realidade no sertão pernambucano.

*Aristóteles Cardona Júnior é médico de família e professor na UNIVASF.