O Carnaval de Pernambuco se descaracteriza e ninguém vê isto?

Coluna Fogo Cruzado – 6 de março de 2019

Do litoral ao Sertão, iremos ouvir nesta quarta-feira de cinzas depoimentos de vários prefeitos nesta mesma tonalidade: “Fizemos o melhor carnaval de todos os tempos”. Eles pouco estão se lixando para a perda de autenticidade do carnaval pernambucano, que já foi o melhor do Brasil justamente quando era carnaval. Hoje, com apoio do poder público, o que se viu no Recife, Olinda e outras cidades do interior foi a apresentação de “cantores” e bandas que nada têm a ver com o nosso carnaval. Ora, se a prefeitura do Recife acha normal colocar nos 45 pólos de animação bandas de rock, axé, sertanejo e forró cearense de quinta categoria, lembre-se que isso já é feito durante todo o ano. Em nome de que um turista de São Paulo, de Curitiba ou de Porto Alegre viria brincar o Carnaval em Pernambuco para ouvir Titãs, Jota Quest e outras bandas do gênero? Vem se não souber. Se essa moçada que comanda os órgãos públicos conhecesse o repertório de Capiba, Nélson Ferreira, Aldemar Paiva e Irmãos Valença, para ficar apenas nesses quatro, aproveitaria o carnaval pernambucano exatamente para reverenciá-lo. O redator dessas linhas não conheceu nenhum deles, pessoalmente, mas travou conhecimento com sua música e avalia sem risco de erro que ela é infinitamente melhor que a de 95% dos artistas que se apresentaram em Pernambuco no carnaval deste ano. Não se trata de preconceito, saudosismo ou discriminação, e sim de saber distinguir o que é bom do que não presta e de valorizar o que é nosso. Que tal esse frevo-canção de Nélson Ferreira na voz de Expedido Baracho: “Se estou ficando com a cabeça branca/ Não é velhice, não senhor/ São muitos talcos de saudosos carnavais/ Jogado em meus cabelos pelas mãos do meu amor”. Ainda bem que nos resta Almir Rouche, André Rio, Gustavo Travassos, Gerlane Lops, Alceu Valença e as orquestras de frevo que tocam nas ruas, que nesse período de carnaval montam repertório estritamente carnavalesco. Que esses continuem segurando a nossa bandeira para que ela não seja totalmente entregue em futuro próximo a que não tem nada a ver com esse ritmo. Não custa lembrar que o carnaval do Rio se mantém como o mais tradicional do Brasil porque é todo feito com as chamadas “marchinhas cariocas”, que o país inteiro conhece, gosta e canta. E que o de Salvador só é o que é porque é feito com artistas baianos, que cantam as músicas feitas por eles: Caetano, Gil, Moraes Moreira, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, etc. No dia que o carnaval de Pernambuco se transformar numa mistura de ritmos que nada tem a ver com carnaval, ele virará uma festa como outra qualquer. Isso pode até demorar um pouco, mas está a caminho. Bobagem dizer que “sertanejo” e “bandas de rock” atraem público que os artistas pernambucanos de carnaval não atrairiam. O povo vai para onde tiver festa de graça. Mas aos poucos está descobrindo que o carnaval pernambucano está deixando de ser carnaval para se transformar num festival de música como outro qualquer, o que é uma pena. Espera-se que isso no futuro seja corrigido, que o São João seja feito com músicas juninas e que o carnaval seja realizado com músicas carnavalescas. Alguém de bom senso concebe uma festa de tango em Buenos Ayres com músicas que não seja tango?

Ainda no estaleiro

O deputado federal Gonzaga Patriota, (PSB-PE) está há 16 dias no estaleiro. Adoeceu em Brasília com suspeita de dengue e cinco dias depois foi transferido para São Paulo numa UTI do ar. Após submeter-se a uma bateria de exames no Hospital Albert Einstein, o mesmo que Bolsonaro foi tratado, os médicos concluíram que ele tem trombose no intestino e complicações no pulmão e no fígado, em decorrência de um quadro viral de chikungunya.

Agradecido ao PTB

Diante do sucesso, cada vez maior, do Gravatá Jazz Festival, alternativa para quem não deseja brincar carnaval, o prefeito Joaquim Neto (PSDB) não se cansa de agradecer ao seu colega de Garanhuns, Izaías Régis (PTB), pelo presente recebido. O Festival nasceu na “Suíça Pernambucana”, mas em 2016 o prefeito disse que não o queria mais. Gravatá o segurou e não pretende mais largá-lo.

Para não atrapalhar a UVB

O vereador André Valença (PSB-São Bento do Una) desistiu de concorrer pela segunda vez à presidência da UVP (União dos Vereadores de Pernambuco). Atendeu a um pedido do deputado Clodoaldo Magalhães (PSB), que por sua vez cedeu aos apelos do presidente da União dos Vereadores do Brasil, Edmilson Henauth. Explica-se: este último é candidato à reeleição e conta com o apoio do presidente da UVP, Josinaldo Araújo (PTB-Timbaúba). Se André mantivesse a candidatura, poderia atrapalhar esta aliança.

Convite para Mourão

O deputado Marco Aurélio (PRTB) espera lotar o plenário da Câmara Municipal do Recife na próxima sexta-feira quando da entrega do título de cidadão recifense ao general Hamilton Mourão, vice-presidente da República. Só ele distribuiu 500 convites.

Em grande estilo

Getúlio Cavalcanti, nosso maior compositor de frevo de blocos, não pretende mais cantar em rua no carnaval do próximo ano. Acha que já deu sua contribuição (e deu mesmo) ao carnaval pernambucano. Foram 44 anos desfilando em blocos, tendo sido o primeiro o “Banhistas do Pina”. Getúlio está imortalizado em nosso cancioneiro popular desde que compôs “Último regresso” (Falam tanto que meu bloco vai…”).

Folião nota 10

Dos 49 deputados estaduais, o que mais circulou pelo Recife, Olinda e o interior durante o carnaval foi Antonio Moraes (PP). Na segunda ele recebeu em Macaparana, sua terra natal, amigos e correligionários para o desfile de um bloco que é tradicional no município.

Supremacia governista

Dos 25 deputados federais pernambucanos, apenas 6 farão oposição ao governo Bolsonaro: três do PSB (Gonzaga Patriota é governista), dois do PT (Marília Arraes e Carlos Veras) e 01 do PCdoB (Renildo Calheiros). Os outros 19 estarão na base de apoio a Bolsonaro.

Os patrocinadores

Os maiores patrocinadores do carnaval de Pernambuco este ano foram as cervejarias. Isso prova que elas ganham rios de dinheiro durante o carnaval, mesmo vendendo cerveja parecida com água. Só para o carnaval do Recife foram R$ 10 milhões.

Sem preconceito

Mesmo sendo evangélico, o prefeito de Olinda, Professor Lupércio (SD), não tem preconceito contra o carnaval como seu “irmão na fé”, Marcelo Crivela (PRB), prefeito do Rio de Janeiro. Crivela saiu da cidade para não entregar a chave ao Rei Momo. Já Lupércio circulou por todos os pólos carnavalescos de Olinda para conferir a qualidade do serviço oferecido à população.

Tradição mantida

Este ano fizeram bons carnavais mantendo a tradição que vem de muitos anos as cidades de Petrolina, Triunfo, Pesqueira, Bezerros, Nazaré da Mata, Vitória de Santo Antão e Paudalho. Em compensação, mais de uma centena de municípios ficaram totalmente desertos. E o de Itaquitinga cancelou o carnaval porque não teve apoio da Fundarpe.