Lavareda só vê cinco nomes com condições de competitividade

O sociólogo pernambucano Antonio Lavareda previu em entrevista ao JB deste domingo (11) que as pesquisas de intenção de voto estão sinalizando que apenas cinco pré-candidatos a presidente da República têm condições de chegar ao segundo turno: Lula (ou outro nome indicado pelo PT), Marina Silva, Geraldo Alckmin, Jair Bolsonaro  e Ciro Gomes.

Veja a entrevista:

 JB – Como o senhor vê o atual cenário político-eleitoral no Brasil? 

Lavareda – Temos hoje um cenário bastante complexo, de grande perplexidade. Foi assim com a primeira eleição após o fim do Estado Novo, quando o país assistiu o ditador deposto, Getúlio Vargas, apoiando o general Eurico Dutra, que o havia defenestrado pouco mais de um mês antes e que se sagraria vitorioso. Ou na primeira eleição presidencial da Nova República, quando os candidatos dos partidos que viabilizaram a superação do regime autoritário instaurado em 1964 e deram ao país a “ Constituição cidadã “ de 1988 foram massacrados nas urnas com pífias votações. Porém, agora o número de variáveis que se entrecruzam opera um desenho quase impossível de ser decifrado a poucos meses do pleito.

JB- A oito meses da eleição, ainda é muito grande a indefinição. A que o senhor atribui o clima de incerteza que atinge a política brasileira? 

Lavareda – Por todas essas variáveis: o país ainda está emergindo de uma brutal recessão, com massa recorde de desempregados; a Lava Jato, que dizimou reputações e candidaturas de forma transversal no universo partidário, inviabiliza a participação do líder das pesquisas (Lula); um governo de transição que obtém sucessos significativos numa agenda de mudanças estruturais mas que amarga elevada impopularidade, e uma crise de representação aguda, abrindo uma fenda tectônica entre o Estado e a sociedade. A partir desse quebra-cabeça, projeções têm o mesmo status de quiromancias.

JB –  O que dizer de um país em que o político com maior aceitação popular é alguém condenado e que pode ser preso em breve?

Lavareda – Dentre os pré-candidatos, o único que já foi presidente é Lula, que o foi por duas vezes. O fato de ter terminado o segundo mandato com 85% de aprovação contribui para seu desempenho atual, assim como é beneficiado também por ser o principal ícone da oposição ao governo Temer, que no momento enfrenta uma elevada desaprovação. Entendo que, apesar de sempre ser lastimável a condenação de um ex-presidente pela repercussão negativa que acarreta, ela faz parte da normalidade democrática e já ocorreu em diversos países. Fujimori, Menem, José Sócrates, Berlusconi, Sarcozy, entre outros, são exemplos disso.

JB- O PT tem usado a estratégia de politizar a condenação de Lula e vai solicitar o registro da sua candidatura junto ao TSE. Até onde acha que Lula e o PT vão nesse jogo? 

Lavareda – Essa questão precisa ser vista na perspectiva do que seria racionalmente o melhor interesse do partido. Três aspectos chamam atenção: primeiro, esse jogo pode perdurar mais algum tempo, para explorar todo o potencial de vitimização do ex-presidente, porém não deve se prolongar em demasia para o partido não correr o risco de inviabilizar pelo esgotamento do calendário as alianças necessárias no nível nacional e nos estados; segundo, o  PT precisará evitar que, sem uma candidatura efetiva, haja consolidação em montante significativo da migração de votos lulistas para concorrentes do campo da esquerda; Por último, que por essas razões apontadas haja um prejuízo às candidaturas proporcionais do partido, que independente disso já aguardavam um difícil cenário este ano.

JB – Quais seriam as opções para o PT? 

Com o ex-governador baiano Jaques Wagner fragilizado por uma operação de busca e apreensão no seu domicílio, as apostas se voltam para o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Este último é frequentemente referido na mídia como o mais “tucano” dos petistas. Essa característica o teria ajudado na eleição da capital paulista que ganhou em 2012, mas talvez não ajude o partido numa eleição presidencial a manter sua força no Nordeste, sobretudo em um momento mais radicalizado como o que vivemos.

JB-  Que nomes de centro podem ascender na disputa eleitoral? 

O relatório da última pesquisa CNT/MDA apresentou um quadro resumo do potencial positivo e do potencial negativo de diversos nomes. Assim, pôde-se ter uma ideia do potencial de crescimento futuro das candidaturas e dos limites postos pelos respectivos graus de rejeição. Após Lula, que não deve ser candidato, só quatro nomes aparecem com mais de 20% de potencial positivo: Marina Silva (40,2%), Geraldo Alckmin (38,0%), Jair Bolsonaro (35,4%) e Ciro Gomes (25,2%). Na outra ponta, a rejeição anotada de cada um deles também em ordem decrescente foi: Marina (53,9%), Geraldo Alckmin (50,7%), Jair Bolsonaro (50,4%) e Ciro Gomes (47,8%). A pesquisa sugere que os movimentos mais significativos das curvas de intenção de voto durante a campanha tenderão a ocorrer com algum ou alguns desses nomes. Devendo-se acrescentar a eles o candidato do PT, qualquer que seja, pela capacidade de transferência de Lula e pela preferência elevada que o PT ainda mantém.

JB – Existe possibilidade de o presidente Temer ser o candidato do MDB? 

Lavareda – Esta é uma possibilidade. Temer será naturalmente o candidato do MDB se a avaliação dele vier a ter uma melhora substancial. Como a perspectiva é de que isso só ocorra no semestre, o mais provável é que o candidato seja Meirelles. O mais importante, para o MDB, é valorizar os feitos desse governo.

JB- O senhor acredita que Bolsonaro se sustentará como candidato? Ele tem chances reais de chegar ao segundo turno? 

Lavareda – Inviabilizada a candidatura de Lula, Bolsonaro já ocupa o primeiro lugar nas pesquisas. Ele está longe de ser um fenômeno meramente circunstancial. A tese corrente de sua “desidratação”, pelo pouco tempo de TV e no rádio, não me parece razoável. O entusiasmo que desperta numa porção significativa do eleitorado aponta identificação na sua candidatura de opiniões e anseios que provavelmente estiveram represados em outras disputas e agora encontraram legitimidade para emergir. Um espaço na ultradireita do espectro eleitoral. É imperioso reconhecer que o ex-capitão encarna uma nostalgia indisfarçada do regime militar.