Entrevista: Alencar Furtado

Entrevista publicada na Folha de Pernambuco do dia 07/09/09

Por: Inaldo Sampaio

O ex-deputado Alencar Furtado (PR), cassado por Geisel em 77 como líder do MDB na Câmara por ter denunciado na televisão a prática de tortura contra adversários do regime, disse em entrevista à “Folha de Pernambuco” que o Congresso de hoje é muito pior que o daquela época, por ser conseqüência da ditadura que imperou no Brasil durante 20 anos.

Ele afirma que o presidente Lula faz concessões excessivas ao PMDB e que reprova a atitude dele de renunciar a posições políticas do passado em nome da “governabilidade”.

Alencar, de 85 anos de idade, não parece ter a idade que tem. Inteiro na acepção literal do termo, o rosto quase sem rugas (sem nunca ter feito cirurgia plástica) e o cabelo pouco embranquecido para a quantidade de janeiros que carrega nas costas, ele esteve no Recife na última quinta-feira para visitar o amigo, Fernando Lyra, que se recupera de um tratamento cardiológico realizado em São Paulo há pouco mais de 30 dias.

Lyra foi liderado dele na bancada do MDB e desde aquela época ficaram amigos. Alencar nasceu em Araripe (CE), também terra natal de Miguel Arraes, de quem é primo em segundo grau, mas na década de cincoenta migrou para o Paraná e lá fez carreira política, tendo virado mito no velho MDB depois que teve o mandato cassado. Em Pernambuco, seus parentes mais próximos são o procurador geral do Estado, Tadeu Alencar (primo legítimo) e o deputado estadual Emanuel Bringel Alencar (primo segundo).
 
Eis a entrevista:

Passados 32 anos da cassação do seu mandato, como o senhor se sente hoje fora da política partidária?

Todos nós que fomos cassados pela ditadura passamos por momentos de muitas dificuldades. A ditadura foi muito cruel com os que não concordavam com as teses dela e eu me incluía nessa relação. Hoje levo uma vida normal e não sinto mais saudade da política por já ter dado a minha colaboração à reconquista da democracia em nosso país.
 
Como se deu o recomeço de sua atividade profissional (advocacia) após ter tido o mandato cassado?

No começo tudo foi difícil. Eu não tinha bens, patrimônio, nada. Sobrevivia do salário de deputado. Um amigo que morava no Rio se prontificou a alugar uma sala para mim, em Brasília, onde resolvi fixar residência após a cassação, para que eu abrisse de imediato um escritório de advocacia, já que não sabia fazer outra coisa. Saí procurando sala para alugar e quando encontrei uma que me agradou, o proprietário disse que não alugaria. Perguntou-me: “O senhor é aquele deputado que foi cassado?” Quando respondi que sim, ele me disse que não alugaria. Sabendo disso, o senador Leite Chaves (paraibano de nascimento e então senador pelo Paraná), que tinha escritório em Brasília, colocou-se à minha disposição e eu passei a trabalhar ao lado dele.
 
Deu muito trabalho para conseguir clientes?

Nos primeiros dez dias não apareceu ninguém e eu já estava ficando angustiado. De repente, chegaram ao escritório três coronéis do Exército. Imaginei que fossem me prender, mas o que eles desejavam era que eu assumisse uma causa deles. Quando eu lhes disse que não era a pessoa indicada para assumir aquela causa por ter sido cassado pelo chefe deles (o general-presidente Ernesto Geisel, que, pela Constituição, era o comandante supremo das Forças Armadas), um me respondeu: “Mas é exatamente por cauda disso que a gente quer o senhor como advogado”.

Eles haviam sido preteridos numa promoção em Itaqui (RS) e queriam recorrer da decisão ao Tribunal Federal de Recursos (hoje Superior Tribunal de Justiça).
 
Ganhou ou perdeu a causa?

Preparei o recurso e dei entrada. Quando o processo estava para ser julgado recebi um telefonema de um amigo de Mato Grosso: “Alencar, preciso que você venha até aqui para patrocinar uma (ação) possessória. Dá para ganhar um bom trocado”. Eu não quis viajar sem primeiro conversar com o ministro-relator e fui ao TFR me inteirar do processo. O encontro com esse ministro mudou radicalmente a minha vida.
 
Por que?

A vida de um cassado era muito dura, especialmente naquela época. Nós éramos tratados como leprosos. Ninguém queria chegar perto da gente. Quando eu cheguei ao gabinete desse ministro e pedi à secretária para falar com ele, ela pediu-me para aguardar e o consultou sobre a audiência. Ao chegar diante dele, ele me perguntou: “O senhor é o deputado Alencar Furtado?”. Respondi: “Não, sou o ex-deputado Alencar Furtado”. Pensei que iria levar um fora semelhante ao do camarada que se recusou a alugar-me a sala, mas me enganei. O ministro levantou-se da cadeira, deu-me um abraço afetuoso e disse: “Antes de mais nada, deputado, receba o meu abraço de solidariedade”. Aquele ministro não sabe o bem que me fez. A partir dali caiu o bloqueio, o complexo, e eu passei a ser um novo homem. Vi que nem tudo estava perdido e que poderia recomeçar a vida normalmente, como de fato recomecei.
 
O senhor lembra o nome do ministro?

Infelizmente, não. Mas guardo na memória a fisionomia dele e nunca vou esquecer daquele abraço de solidariedade que ele me deu num dos momentos mais difíceis de minha vida. Para completar, o recurso foi julgado procedente e os três militares ganharam a promoção.
 
Em relação àquela época, como o senhor avalia o Congresso Nacional de hoje?

Esse Congresso que aí está ainda é conseqüência da ditadura, que foi muito cruel com os democratas. É um Congresso fraco, de um nível político muito baixo em relação ao nível da nossa época. Travávamos uma luta desigual com o regime, mas era uma luta sincera, corajosa, cheia de idealismo, muito diferente desse Congresso de hoje.
 
Como vê o apoio do presidente Lula à permanência de José Sarney na presidência do Senado?

Sou um crítico de ambos. Em primeiro lugar, porque eu não gosto de político que muda de posição e o presidente Lula, a meu ver, mudou muito de posição depois que chegou ao poder, fazendo concessões exageradas em nome dessa tal “governabilidade”. E Sarney era presidente da Arena quando nós combatíamos a ditadura que ele ajudava a sustentar. Não tenho nenhuma simpatia por esse personagem.
 
Será que o presidente Lula sustenta Sarney pela impossibilidade de governar sem apoio do PMDB?
 
Em parte ele até pode ter razão. Mas há algumas coisas na política que são absolutamente inegociáveis como a defesa de princípios, por exemplo. O Lula fez concessões demais a essa gente e por isso eu sou um crítico do governo dele.
 
Que lições o Brasil poderá tirar dessa crise moral por que o Congresso está passando?

A memória histórica daquela época deveria iluminar a nossa juventude, servir de exemplo para ela. Mas, ao que me parece, os jovens não estão nem aí para essa situação, o que é profundamente lamentável. Seria muito bom para a democracia se os jovens de hoje procurassem se informar sobre o que foi o Brasil nas décadas de sessenta, setenta e oitenta, quando os militares governaram o país ditatorialmente. Se existiam os pusilânimes que davam apoio aos generais, existiam também os idealistas que não mediam nenhum tipo de sacrifício para defender a liberdade e a democracia.
 
O senhor foi cassado pelo AI-5 por ter usado o programa político do MDB para denunciar tortura em nosso país. A perda do mandato estava nos seus planos?
 
Todos nós que formávamos o “grupo autêntico” do MDB vivíamos sob ameaça de cassação. Fazíamos uma dura oposição ao regime e aquilo, evidentemente, irritava bastante os militares. O Fernando Lyra, que era membro da nossa bancada, acompanhou de perto a nossa luta. Lembro que certa vez eu preparei um discurso sobre o projeto de reforma do Poder Judiciário, que o Geisel havia remetido ao Congresso, reuni a família e disse: “Preparem-se porque amanhã serei cassado!”. Fiz o discurso e nada aconteceu, embora o Congresso tenha sido fechado por ordem do Geisel. Já o pronunciamento que fiz na TV, que imaginava ter outro tipo de consequência, resultou na minha cassação. 
 
Como líder do MDB na Câmara, o senhor esteve alguma vez com o general Ernesto Geisel?

Não. Lembro que quando o Célio Borja (Arena-RJ) foi eleito para presidente da Câmara Federal, convidou os líderes e os membros da mesa para fazermos uma visita protocolar ao presidente da República. Eu disse a ele que em hipótese nenhuma eu iria àquele “beija-mão” porque o nosso companheiro Chico Pinto (MDB-BA) estava preso e processado pela Lei de Segurança por ter feito um discurso de protesto contra a visita de Pinochet ao nosso país. Chico era liderado meu na bancada do MDB, com que cara eu iria a um encontro com o Geisel? Não fui. Cerca de um ano depois, o Herbert Levy (Arena-SP) me contou que o Geisel ficou aborrecido porque eu faltei àquele encontro. Deve ter começado desse episódio a marcação que ele tinha comigo.
 
O ministro da Justiça de Geisel, Armando Falcão, era cearense como o senhor. Chegou a ter contato com ele alguma vez?
 
Eu não o vi uma vez sequer durante o tempo em que ele foi ministro e não o conhecia pessoalmente, embora soubesse que ele era cearense do município de Quixeramobim. Depois de cassado, fui a um jantar no Rio de Janeiro, na casa de um amigo comum, e quando cheguei lá o Falcão estava. Se eu soubesse que ele estava não iria, mas a casa não era minha e eu não tive o que fazer. Ele se dirigiu a mim com essas palavras: “Meu conterrâneo do Ceará Alencar Furtado!”. Aproveitei a ocasião para perguntar-lhe por que fui cassado pelo Geisel. Ele me disse que foi o general Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), quem pediu ao Geisel a minha cabeça e a do Ulysses Guimarães (então presidente do MDB). E que ele, Falcão, teria dito o seguinte ao presidente da República: “Presidente, o senhor vai cassar o presidente nacional do partido de oposição e o seu líder na Câmara Federal. A repercussão internacional será muito negativa para a imagem do nosso governo”. O general Figueiredo permaneceu irredutível e dito ao Geisel que se ele não me cassasse pediria demissão do SNI.
 
Quem ainda se encontra vivo do ex “grupo autêntico” do MDB?

 Em atividade, ao que eu saiba, apenas o Marcondes Gadelha (PSB-PB), o Paes de Andrade (PMDB-CE) e o Freitas Diniz (MA). Morreram Getúlio Dias (RS), Lisâneas Maciel (RJ), Marcos Freire (PE), Chico Pinto (BA), J.G. de Araújo Jorge e outros. Esse grupo, embora minoritário no partido, fez história. Fomos os primeiros a denunciar ao Brasil e ao mundo as atrocidades do regime militar e só depois que fizemos isso é que outras entidades se incorporaram à nossa causa como a Igreja Católica, a OAB, a ABI e outras.
 
O senhor chegou a ter um desentendimento na Câmara com um deputado também do Paraná chamado Santos Filho. Lembra qual foi a causa deste episódio?

Eu estava na tribuna fazendo um discurso e ele resolveu apartear-me. O nosso pessoal, que já o conhecia, não queria que eu desse o aparte. Mas eu resolvi dar. Ele derramou-se em elogios à ditadura, eu perdi a paciência e gritei: “Basta. Só existe ditadura em nosso país porque há bajuladores como Vossa Excelência!” A repercussão disso foi enorme.
 
O senhor foi cassado em 77 e dois anos depois veio a anistia. Não passou pela sua cabeça retornar à atividade política como fizeram Arraes, Brizola e outros?

Passou, sim. Eu era muito cobrado para voltar ao Paraná a fim de disputar um novo mandato, já que tinha sido eleito por lá deputado estadual e deputado federal. E voltei. Candidatei-me a governador em 86 e perdi a eleição. Retornei a Brasília onde possuo um pequeno sítio e não quis mais saber de eleição.


Entrevista: Alencar Furtado

Entrevista publicada na Folha de Pernambuco do dia 07/09/09

Por: Inaldo Sampaio

O ex-deputado Alencar Furtado (PR), cassado por Geisel em 77 como líder do MDB na Câmara por ter denunciado na televisão a prática de tortura contra adversários do regime, disse em entrevista à “Folha de Pernambuco” que o Congresso de hoje é muito pior que o daquela época, por ser conseqüência da ditadura que imperou no Brasil durante 20 anos.

Ele afirma que o presidente Lula faz concessões excessivas ao PMDB e que reprova a atitude dele de renunciar a posições políticas do passado em nome da “governabilidade”.

Alencar, de 85 anos de idade, não parece ter a idade que tem. Inteiro na acepção literal do termo, o rosto quase sem rugas (sem nunca ter feito cirurgia plástica) e o cabelo pouco embranquecido para a quantidade de janeiros que carrega nas costas, ele esteve no Recife na última quinta-feira para visitar o amigo, Fernando Lyra, que se recupera de um tratamento cardiológico realizado em São Paulo há pouco mais de 30 dias.

Lyra foi liderado dele na bancada do MDB e desde aquela época ficaram amigos. Alencar nasceu em Araripe (CE), também terra natal de Miguel Arraes, de quem é primo em segundo grau, mas na década de cincoenta migrou para o Paraná e lá fez carreira política, tendo virado mito no velho MDB depois que teve o mandato cassado. Em Pernambuco, seus parentes mais próximos são o procurador geral do Estado, Tadeu Alencar (primo legítimo) e o deputado estadual Emanuel Bringel Alencar (primo segundo).
 
Eis a entrevista:

Passados 32 anos da cassação do seu mandato, como o senhor se sente hoje fora da política partidária?

Todos nós que fomos cassados pela ditadura passamos por momentos de muitas dificuldades. A ditadura foi muito cruel com os que não concordavam com as teses dela e eu me incluía nessa relação. Hoje levo uma vida normal e não sinto mais saudade da política por já ter dado a minha colaboração à reconquista da democracia em nosso país.
 
Como se deu o recomeço de sua atividade profissional (advocacia) após ter tido o mandato cassado?

No começo tudo foi difícil. Eu não tinha bens, patrimônio, nada. Sobrevivia do salário de deputado. Um amigo que morava no Rio se prontificou a alugar uma sala para mim, em Brasília, onde resolvi fixar residência após a cassação, para que eu abrisse de imediato um escritório de advocacia, já que não sabia fazer outra coisa. Saí procurando sala para alugar e quando encontrei uma que me agradou, o proprietário disse que não alugaria. Perguntou-me: “O senhor é aquele deputado que foi cassado?” Quando respondi que sim, ele me disse que não alugaria. Sabendo disso, o senador Leite Chaves (paraibano de nascimento e então senador pelo Paraná), que tinha escritório em Brasília, colocou-se à minha disposição e eu passei a trabalhar ao lado dele.
 
Deu muito trabalho para conseguir clientes?

Nos primeiros dez dias não apareceu ninguém e eu já estava ficando angustiado. De repente, chegaram ao escritório três coronéis do Exército. Imaginei que fossem me prender, mas o que eles desejavam era que eu assumisse uma causa deles. Quando eu lhes disse que não era a pessoa indicada para assumir aquela causa por ter sido cassado pelo chefe deles (o general-presidente Ernesto Geisel, que, pela Constituição, era o comandante supremo das Forças Armadas), um me respondeu: “Mas é exatamente por cauda disso que a gente quer o senhor como advogado”.

Eles haviam sido preteridos numa promoção em Itaqui (RS) e queriam recorrer da decisão ao Tribunal Federal de Recursos (hoje Superior Tribunal de Justiça).
 
Ganhou ou perdeu a causa?

Preparei o recurso e dei entrada. Quando o processo estava para ser julgado recebi um telefonema de um amigo de Mato Grosso: “Alencar, preciso que você venha até aqui para patrocinar uma (ação) possessória. Dá para ganhar um bom trocado”. Eu não quis viajar sem primeiro conversar com o ministro-relator e fui ao TFR me inteirar do processo. O encontro com esse ministro mudou radicalmente a minha vida.
 
Por que?

A vida de um cassado era muito dura, especialmente naquela época. Nós éramos tratados como leprosos. Ninguém queria chegar perto da gente. Quando eu cheguei ao gabinete desse ministro e pedi à secretária para falar com ele, ela pediu-me para aguardar e o consultou sobre a audiência. Ao chegar diante dele, ele me perguntou: “O senhor é o deputado Alencar Furtado?”. Respondi: “Não, sou o ex-deputado Alencar Furtado”. Pensei que iria levar um fora semelhante ao do camarada que se recusou a alugar-me a sala, mas me enganei. O ministro levantou-se da cadeira, deu-me um abraço afetuoso e disse: “Antes de mais nada, deputado, receba o meu abraço de solidariedade”. Aquele ministro não sabe o bem que me fez. A partir dali caiu o bloqueio, o complexo, e eu passei a ser um novo homem. Vi que nem tudo estava perdido e que poderia recomeçar a vida normalmente, como de fato recomecei.
 
O senhor lembra o nome do ministro?

Infelizmente, não. Mas guardo na memória a fisionomia dele e nunca vou esquecer daquele abraço de solidariedade que ele me deu num dos momentos mais difíceis de minha vida. Para completar, o recurso foi julgado procedente e os três militares ganharam a promoção.
 
Em relação àquela época, como o senhor avalia o Congresso Nacional de hoje?

Esse Congresso que aí está ainda é consequência da ditadura, que foi muito cruel com os democratas. É um Congresso fraco, de um nível político muito baixo em relação ao nível da nossa época. Travávamos uma luta desigual com o regime, mas era uma luta sincera, corajosa, cheia de idealismo, muito diferente desse Congresso de hoje.
 
Como vê o apoio do presidente Lula à permanência de José Sarney na presidência do Senado?

Sou um crítico de ambos. Em primeiro lugar, porque eu não gosto de político que muda de posição e o presidente Lula, a meu ver, mudou muito de posição depois que chegou ao poder, fazendo concessões exageradas em nome dessa tal “governabilidade”. E Sarney era presidente da Arena quando nós combatíamos a ditadura que ele ajudava a sustentar. Não tenho nenhuma simpatia por esse personagem.
 
Será que o presidente Lula sustenta Sarney pela impossibilidade de governar sem apoio do PMDB?
 
Em parte ele até pode ter razão. Mas há algumas coisas na política que são absolutamente inegociáveis como a defesa de princípios, por exemplo. O Lula fez concessões demais a essa gente e por isso eu sou um crítico do governo dele.
 
Que lições o Brasil poderá tirar dessa crise moral por que o Congresso está passando?

A memória histórica daquela época deveria iluminar a nossa juventude, servir de exemplo para ela. Mas, ao que me parece, os jovens não estão nem aí para essa situação, o que é profundamente lamentável. Seria muito bom para a democracia se os jovens de hoje procurassem se informar sobre o que foi o Brasil nas décadas de sessenta, setenta e oitenta, quando os militares governaram o país ditatorialmente. Se existiam os pusilânimes que davam apoio aos generais, existiam também os idealistas que não mediam nenhum tipo de sacrifício para defender a liberdade e a democracia.
 
O senhor foi cassado pelo AI-5 por ter usado o programa político do MDB para denunciar tortura em nosso país. A perda do mandato estava nos seus planos?
 
Todos nós que formávamos o “grupo autêntico” do MDB vivíamos sob ameaça de cassação. Fazíamos uma dura oposição ao regime e aquilo, evidentemente, irritava bastante os militares. O Fernando Lyra, que era membro da nossa bancada, acompanhou de perto a nossa luta. Lembro que certa vez eu preparei um discurso sobre o projeto de reforma do Poder Judiciário, que o Geisel havia remetido ao Congresso, reuni a família e disse: “Preparem-se porque amanhã serei cassado!”. Fiz o discurso e nada aconteceu, embora o Congresso tenha sido fechado por ordem do Geisel. Já o pronunciamento que fiz na TV, que imaginava ter outro tipo de consequência, resultou na minha cassação. 
 
Como líder do MDB na Câmara, o senhor esteve alguma vez com o general Ernesto Geisel?

Não. Lembro que quando o Célio Borja (Arena-RJ) foi eleito para presidente da Câmara Federal, convidou os líderes e os membros da mesa para fazermos uma visita protocolar ao presidente da República. Eu disse a ele que em hipótese nenhuma eu iria àquele “beija-mão” porque o nosso companheiro Chico Pinto (MDB-BA) estava preso e processado pela Lei de Segurança por ter feito um discurso de protesto contra a visita de Pinochet ao nosso país. Chico era liderado meu na bancada do MDB, com que cara eu iria a um encontro com o Geisel? Não fui. Cerca de um ano depois, o Herbert Levy (Arena-SP) me contou que o Geisel ficou aborrecido porque eu faltei àquele encontro. Deve ter começado desse episódio a marcação que ele tinha comigo.
 
O ministro da Justiça de Geisel, Armando Falcão, era cearense como o senhor. Chegou a ter contato com ele alguma vez?
 
Eu não o vi uma vez sequer durante o tempo em que ele foi ministro e não o conhecia pessoalmente, embora soubesse que ele era cearense do município de Quixeramobim. Depois de cassado, fui a um jantar no Rio de Janeiro, na casa de um amigo comum, e quando cheguei lá o Falcão estava. Se eu soubesse que ele estava não iria, mas a casa não era minha e eu não tive o que fazer. Ele se dirigiu a mim com essas palavras: “Meu conterrâneo do Ceará Alencar Furtado!”. Aproveitei a ocasião para perguntar-lhe por que fui cassado pelo Geisel. Ele me disse que foi o general Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), quem pediu ao Geisel a minha cabeça e a do Ulysses Guimarães (então presidente do MDB). E que ele, Falcão, teria dito o seguinte ao presidente da República: “Presidente, o senhor vai cassar o presidente nacional do partido de oposição e o seu líder na Câmara Federal. A repercussão internacional será muito negativa para a imagem do nosso governo”. O general Figueiredo permaneceu irredutível e dito ao Geisel que se ele não me cassasse pediria demissão do SNI.
 
Quem ainda se encontra vivo do ex “grupo autêntico” do MDB?

 Em atividade, ao que eu saiba, apenas o Marcondes Gadelha (PSB-PB), o Paes de Andrade (PMDB-CE) e o Freitas Diniz (MA). Morreram Getúlio Dias (RS), Lisâneas Maciel (RJ), Marcos Freire (PE), Chico Pinto (BA), J.G. de Araújo Jorge e outros. Esse grupo, embora minoritário no partido, fez história. Fomos os primeiros a denunciar ao Brasil e ao mundo as atrocidades do regime militar e só depois que fizemos isso é que outras entidades se incorporaram à nossa causa como a Igreja Católica, a OAB, a ABI e outras.
 
O senhor chegou a ter um desentendimento na Câmara com um deputado também do Paraná chamado Santos Filho. Lembra qual foi a causa deste episódio?

Eu estava na tribuna fazendo um discurso e ele resolveu apartear-me. O nosso pessoal, que já o conhecia, não queria que eu desse o aparte. Mas eu resolvi dar. Ele derramou-se em elogios à ditadura, eu perdi a paciência e gritei: “Basta. Só existe ditadura em nosso país porque há bajuladores como Vossa Excelência!” A repercussão disso foi enorme.
 
O senhor foi cassado em 77 e dois anos depois veio a anistia. Não passou pela sua cabeça retornar à atividade política como fizeram Arraes, Brizola e outros?

Passou, sim. Eu era muito cobrado para voltar ao Paraná a fim de disputar um novo mandato, já que tinha sido eleito por lá deputado estadual e deputado federal. E voltei. Candidatei-me a governador em 86 e perdi a eleição. Retornei a Brasília onde possuo um pequeno sítio e não quis mais saber de eleição.