E Renan foi derrotado dentro do próprio MDB

Coluna Fogo Cruzado – 4 de fevereiro de 2019

Quem acompanha a política brasileira sabe que o senador Renan Calheiros é um dos mais talentosos políticos do país e aqui não se faz nenhum juízo de valor sobre as acusações que pesam contra ele no campo ético e moral. O fato é que metade dos inquéritos em que é investigado pela suposta prática de vários crimes, entre eles lavagem de dinheiro, já foi arquivada pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas, o que lhe tem dado sobrevida no parlamento brasileiro. Pois bem, é com esse extraordinário talento político adquirido em Murici, berço de um dos clãs mais conhecidos de Alagoas, que Renan foi peça decisiva em 1989 para eleger um presidente da República (o conterrâneo Collor de Mello) e depois para romper com ele, aliar-se a FHC de quem foi ministro da Justiça, fazer a travessia política para os palanques de Lula e Dilma, porém sempre com o cuidado de não perder o controle da legenda junto com o companheiro inseparável Romero Jucá Filho, que as urnas de Roraima despacharam de volta para casa nas eleições de outubro último. Renan votou a favor do impeachment de Dilma mas logo depois passou a ser cabo eleitoral de Lula em seu Estado, mesmo sabendo que ele não seria candidato. Interessava-lhe, no entanto, fazer a pregação da volta do “lulismo” porque isso ajudaria na reeleição do governador Renan Calheiros Filho. Pai e filho votaram disciplinadamente em Fernando Haddad. Mas após a vitória de Jair Bolsonaro iniciaram o processo de aproximação com o novo presidente da República. Se esse casamento será duradouro ou não, o tempo dirá. Mas Renan tem sete vidas e não será desta vez que pretende dar murro em ponta de faca. Se Bolsonaro der um novo rumo ao país na área econômica, contribuindo pelo menos para reduzir a taxa de desemprego, Renan estará firme ao lado dele, e desta vez sem ter que dividir a liderança do MDB com o ex-senador Romero Jucá.

O início da derrocada

Renan disputaria a presidência do Senado pela quinta vez e um dos seus erros políticos nesta eleição foi não avaliar corretamente a força que imaginava que ainda detinha. Sempre foi apontado como “candidato favorito”, mas ninguém explicava convincentemente de onde vinha esse favoritismo. Da bancada do MDB não era, dado que, dos 12 senadores que participaram da prévia para a escolha do candidato, apenas 7 marcharam com ele. Foi aí que sua provável derrota começou a se desenhar.

As frentes de batalha

Num colégio de 81 senadores, a maioria deles de primeiro mandato, como Renan poderia vencer a eleição com várias frentes trabalhando contra ele? Primeiro, o ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni. Depois, os cinco senadores emedebistas que não o queriam como candidato. Em terceiro lugar, influentes senadores do PSDB como Tasso Jereissati (CE) e Antonio Anastasia (MG), para os quais o Brasil que surgiu das urnas em 2018 não mais toleraria Renan na presidência do Senado pela quinta vez. E até o estreante Cid Gomes (PDT-CE).

Aliados enfraquecidos

Apenas o PT, liderado pelo pernambucano Humberto Costa, manteve-se fiel à candidatura de Renan e mesmo assim sem fazer muito alarde. Não por identificação política com o ideário do emedebista e sim para retribuir o apoio dado por ele ao candidato Fernando Haddad.

A polêmica do voto

Também pesou contra as pretensões do senador alagoano a polêmica discussão em torno do voto aberto ou secreto para a escolha do novo presidente do Senado. O Regimento Interno do Senado prevê o voto secreto. Por esse motivo, “judicializar” essa questão era perda de tempo. O STF reconheceria, como de fato reconheceu, que a eleição fosse secreta. Mas levar esse debate à sociedade acabou sendo um fator de desgaste para Calheiros. Não pelo fato em si e sim pela versão, ou seja, Calheiros seria derrotado numa eventual eleição aberta porque os próprios aliados teriam vergonha de se apresentar à sociedade como eleitores dele.

A hora de tirar o corpo

Além de Renan e Davi Alcolumbre (DEM-AP), mais seis senadores se inscreveram para disputar a presidência do Senado, mas nenhum com força suficiente para sepultar de vez o “renanzismo”. Outros foram largando a candidatura pelo meio do caminho, como o posudo Álvaro Dias (Podemos-PR) que insiste em apresentar-se ao Brasil como “paladino da ética”, e o sempre mal-humorado Tasso Jeressiati (PSDB-CE), que Renan chamou a desafiar para trocar “porrada”

Todos contra Renan

Enquanto Renan esperneava em defesa do voto secreto e acusava o ministro Lorenzoni de estar interferindo na eleição da mesa diretora, crescia a olhos vistos o candidato da preferência do chefe da Casa Civil – o obscuro Davi Alcolumbre. Este passou a encarnar o “anti Renan” e mesmo não tendo 10% da capacidade que o alagoano tem para dirigir a Casa, tornou-se o favorito de uma hora para hora. A lógica da maioria do plenário era a seguinte: que se eleja qualquer um, menos Renan. Foi o que deu.

A terceira colocação

À medida que as conversas avançavam, por volta do meio dia do sábado (2) já se sabia que a eleição não se resolveria no primeiro turno. Iriam ao segundo Davi Alcolumbre, apoiado pelo governo Bolsonaro, e outro candidato que não seria Renan. O alagoano iria amargar um humilhante terceiro lugar e isso para os brios dele equivaleria a uma sentença de morte. Foi
nesse contexto que ele pediu a palavra para anunciar que estava desistindo da postulação em favor de Alcolumbre.

Um presidente fraco

De origem judia e dono de um dos maiores patrimônios do Amapá, Alcolumbre já tinha sido deputado estadual e federal antes de eleger-se senador em 2014, derrotando o então favorito Gilvam Borges (PDT). Tentou eleger-se governador em 2018 contra Alcir Gurgaz (PDT), mas não deu. Voltou para o Senado para concluiu os outros quatro anos do mandato e agora na condição de terceiro colocado na linha sucessória presidencial. Será, até pela sua inexperiência e pouca idade, o presidente mais fraco da história do Senado nos últimos 50 anos.

O futuro de Renan

Quando ao futuro de Renan, ainda não se sabe qual será. Mas morto, com certeza, ele não está. Ainda tem muito talento na cabeça para ajudar ou atrapalhar o governo Bolsonaro, de acordo com a régua com que for tratado. Não tem mais a força que teve no passado, mas ainda assim seguirá no Senado como um dos seus mais influentes membros.

A ausência – Jarbas Vasconcelos (PE) foi o único senador do MDB que não participou da prévia do partido para a escolha do candidato à presidência do Senado. Não tinha simpatia por Simone Tebet (MS), filha do ex-senador Remez Tebet, que ACM costumava chamar de “o rábula do pantanal”, para humilhá-lo, e muito menos por Renan. Fernando Bezerra Coelho (MDB) e Humberto Costa (PT) teriam votado em Renan se ele tivesse levado a candidatura até o fim.