De volta

Por: *José Paulo Cavalcanti Filho

Já era tempo. Ninguém se perde no caminho da volta, diz um dito popular. Inspirado na Bagaceira: “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”. Belo romance escrito por José Américo… Aqui, um problema. Que dá um azar danado dizer (ou escrever) o nome completo do autor. Por isso, todos preferem chamá-lo de Zé Três Pancadas. Lembrando o toc, toc, toc do bater na madeira, para espantar o azar.

Tudo começou em 1932, num acidente aéreo ocorrido na Bahia de Todos os Santos (Salvador). Em que morreu Antenor Navarro, interventor da Paraíba. E o dito Zé Três Pancadas escapou, tranquilo, boiando sobre uma das asas do avião. O destrambelhado cantador Zé Limeira, no meio de cantoria em que louvava Alexandre, O Grande, acabou menosprezando feitos do general macedônio ao dizer “Maior foi Zé Américo/ Que escapou do avião”. Faltando só lembrar outro paraibano, José Neumanne Pinto, que encerra belo poema (A volta de novo) inspirado naquela frase: “Na volta/ Ninguém se perde./ Na volta só se abre mão da solidão”. Melhor, por tudo, apenas seja começar lembrando Osvaldo Nunes, em velho samba que diz “Voltei, aqui é o meu lugar”. Porque sinto ser mesmo.

Durante algum tempo, parei de escrever semanalmente. E, desde então, o país mudou. Para pior. O velho modelo que herdamos esgotou-se. Por conta de escolhas erradas que fizemos. E dos baixos graus de modernidade em nossa economia. O discurso político tradicional parece hoje obsoleto. Cada vez mais parece falso o discurso de que nossas elites políticas apenas reproduzem a base ética da sociedade. Ou, talvez, apenas prefira acreditar nisso.

Mas a maior mudança deu-se nas relações. Um curto circuito ético, jurídico e político. Intransigentes com os diferentes, nos últimos tempos somos generosos só com quem pensa como nós. Nesses, perdoamos tudo. Até apropriação do patrimônio público. Pior é que essa crise se espraia em outra, ideológica, com radicalização que produz o esgarçamento do tecido social. A realidade aposentou, precocemente, nosso futuro. O tornou mais duro. Quase todas as nossas ilusões de antes se revelaram perdidas. Obsoletas. Ou vãs. É tempo de voltar a ter utopias.

O renomado astrólogo Eduardo Maia previu que 2018 seria um ano complicado, especialmente para o Brasil. Porque Netuno completou agora, em setembro, a sua oposição ao Sol do Mapa do Brasil. Em ciclo de 164 anos. Trazendo, com ele, todos os vícios. Especialmente a partir do Trânsito de Saturno, em outubro, em conjunção com o Urano ST (estacionário) do Brasil, que ativa o radicalismo. Se assim for, o desenho caótico das eleições deste ano estava já escrito nas estrelas. Mais grave é que, segundo ele, o ambiente continuará carregado também em 2019. Só melhorando a partir de 2020. Evoé!, leitor amigo. Não há mal que sempre dure.

 Só que, nesse tempo de ausência, também mudamos nós. Ao contrário, para melhor. A gente sempre muda para melhor. Porque o tempo, esse Deus sem nome, anda só para frente. Volto a escrever nestas páginas, pois, com essa compreensão de que tudo muda permanentemente. Como dizia o amigo Pessoa (Álvaro de Campos, Là-bas, je ne sais où), “Nunca voltarei/ Nunca voltarei porque nunca se volta./ O lugar a que se volta é sempre outro”. Dando-se por findas essas palavras de regresso, com alegria. Esperanças renovadas. E a consciência de que toda volta é, também, um recomeço.

*José Paulo Cavalcanti Filho é advogado e voltou a escrever no JC às sextas-feiras.